Ele perdeu tanta coisa... Ele não conheceu o computador. Muito menos a Internet. Twitter, blogs, Youtube, o que são essas coisas? Ele nunca usou um telefone celular. Aliás, ele nunca chegou perto de um celular na vida. Nada disso fez parte da sua vida. MP-3? Que isso, no máximo um walkman. Ele não viu o Collor cair. Ele não viu o que é viver em um país sem inflação. Ele nunca vai saber que o Brasil pagou a dívida externa junto ao FMI. Ele não viu as duas guerras do Iraque, a crise asiática, a nova crise do petróleo, a queda das Torres Gêmeas, a eleição do FHC nem a do Lula, o crescimento da China, o primeiro afrodescendente na presidência dos EUA. Ele não viu a seleção campeã em 94, nem o acidente de Ayrton Senna naquele mesmo ano. Nem o pentacampeonato da seleção. Ele nunca soube quem é Ronaldo Fenômeno. Ele não viu a virada do século, a ameaça do Bug do Milênio. Ele não terminou o colegial. Ele não prestou vestibular. Ele não ficou noivo. Ele não se casou. Nem teve filhos. Nem teve uma profissão. De fato, ele não teve a oportunidade de saber o que ele seria quando crescesse. Há 19 anos, a essa hora, ele estava sendo velado. Ou enterrado no Vila Formosa, não sei ao certo.
E eu nunca, nunca, nunca entendi por que eu o conheci - não o conheci, de fato, nem colegas éramos e a única vez que tentei falar com ele, ele respondeu: "eu não me lembro de você lá na escola." Por que ele cruzou meu caminho em 1989? Por que ele saiu em 1990? E por que ele se foi, com tanta gente ruim nesse mundo que não merecia estar aqui? Eu não sabia quase nada dele. Era bom menino, indicava, pois foi escoteiro. Mas tava virando adolescente chato, largando a escola. Não era um aluno brilhante, mas não era péssimo. Adorava camisetas de marca. Lançava moda. Era engraçado. Não fumava, pelo menos não na escola. Era amoroso com a professora de Biologia e as amigas. Era um bom amigo dos meninos. Tinha olhos castanhos muito expressivos. O cabelo mais pra preto, era cortado meio repicado na franja, jogada de lado. Tinha colar e pulseira de surfista. Tinha pintas charmosas no rosto. Um sorriso lindo. Um ar debochado e irônico. Era metido. Era o queridinho da escola, por ser o mais bonito. Namorou meio que escondido uma moça da escola, acho que para evitar fofoca. Ia na Toco e na Contra-Mão pra dançar. Tinha uma graninha, mas não era rico. Nem classe média média.
Sempre que eu penso nele, é como se fosse uma história não acabada na minha vida. Ele se foi, depois de um acidente de moto que, pelas fofocas da época, foi muito violento. E eu nunca pude me despedir de fato dele, acho que é por isso que parece uma história sem fim. Especialmente porque a última vez que eu o vi foi justamente a única em que eu tive coragem para falar com ele. E tomei uma senhora patada. Depois da patada, eu fiquei com raiva. Mais de mim do que dele. Porque eu sabia que seria daquela forma. Não o conhecia, mas sabia que, a qualquer tentativa minha, ele ia me dar um coice. E não era obrigação dele gostar de mim.
Me despedi dele com um "tá bom M.", virando as costas, chateada, enquanto minha mão esquerda, que tinha acabado de segurar o braço direito dele, entre o pulso e o cotovelo, ainda latejava pelo único contato físico que tivemos na vida. Que custava ele ser educado e responder por que não ia mais na escola? Eu desci a rua dele sentindo o braço dele na minha mão, que eu segurei para chamar a atenção dele e fazê-lo parar para conversar quando estávamos atravessando a rua. Eu e meus cabelos medonhos e aquele maldito aparelho de dentes. Magrela. Mal vestida. Usando óculos. E ele sempre cercado das meninas mais bonitas da escola. O nosso Tom Cruise.
Naquele dia de 1990 ele estava lindo, como sempre. Metidinho, como todo adolescente bonito e assediado aos 16, 17 anos. Eu sabia de cor as camisetas dele. Ele usava tênis Rainha azul escuro, sem cadarço e amassado no calcanhar, como se fosse chinelo. Meu irmão tinha um tênis igual e passou pra mim e eu usava igual a ele. Ele arregaçava e enrolava as mangas das camisetas nos ombros e elas viravam regatas. Eu fazia o mesmo. Ele sempre tava com pirulito, bala ou doce de amendoim, o que eram febres de todo mundo na escola. Eu sonhava com ele de olhos abertos, imaginando mil histórias. Eu era obcecada, doente por ele.
Eu olhava fixamente para ele, muito séria. O achava lindo e irritante. Ele achava que eu ia ficar sem graça e sustentava meu olhar. Havia dia em que passávamos quase que todo o intervalo (o recreio) olhando um pra cara do outro. Mas ele não se lembrava de mim na escola. Quando ele falou isso, ali naquele encontro na rua dele em meados de maio de 1990, acho, eu pensei que havia passado todo o ano de 1989 em estado de delírio. Achei que eu tinha imaginado que ele tinha me notado, e olhado para mim. Mas eu sei que não delirei. Ele podia me achar medonha, mas se divertia horrores com a guerrinha de olhar. Me lembro de vários episódios, como da minha melhor amiga me dizendo "pára com isso! Eu é que tô com vergonha!" de uma das vezes em que eu e ele estávamos nessa guerrinha. Ele tava com a camiseta bordô Pakalolo, calça jeans azul meio gasta e o infalível tênis Rainha de calcanhar dobrado. Eu chupava pirulito e ele comia, acho, um doce de amendoim. E a Gi batendo leve no meu ombro: "pára com isso!" E eu respondendo: "eu não, ele que pare." Acabei desistindo porque deu o sinal e a gente tinha de voltar para a classe.
E teve o dia em que eu quase cai de cara no bumbum dele. Ele tinha um bumbum lindo! E eu subi atrás dele, babando, e tropecei. A Gi riu muito. Teve o dia do metrô. Eu desci para a plataforma por uma escada e parei na linha amarela. Logo em seguida ele desceu na outra plataforma. Eu tava olhando pro chão e quando levantei os olhos ele estava do outro lado, o fosso da linha entre a gente. Ele disfarçou um sorriso e eu disfarcei um sorriso. O metrô chegou, entramos e eu fiquei encostada na porta, de lado, olhando pra ele de canto de olho. Ele desceu na mesma estação que eu, a Carrão. Só que ele ia pro lado direito e eu pro esquerdo. Esperei ele passar na minha frente, pra apreciar o moço de costas. Sério, ele tinha um bumbum lindo, o que eu podia fazer? E eu queria ver para onde ele ia. Fiquei na passarela do metrô vendo-o ir embora até ele sumir de vista. Pensando pra onde ele ia. Hospital? Casa de namorada? Ai que ciúme que me deu a ideia...
E teve também o último dia de aula em 1989, ano que por mim nunca deveria ter acabado. Nesse dia, eu fiquei com a Gi parada na escada rolante, olhando-o de longe, ele na fila do ônibus para ir embora. Eu só fui embora depois que o ônibus dele saiu. Isso demorou quase uma hora para acontecer. Ali achei que não o veria mais. Em 1990, a Gi mudou pra Publicidade e eu fiquei no normal pra prestar vestibular. Ele tinha se mudado para Publicidade. Mas estava matriculado no período da manhã. Um belo dia, ele apareceu à tarde, com caderno na mão. A Gi, nesse tempo, já era amiga de várias meninas que eram amiga dele no ano de 1989. Eu também conheci algumas na minha classe. Ele foi pra sala da Gi. Ela foi deixar o material e eu fiquei esperando por ela no final do corredor, antes de ir para o último andar, pois queria saber o que estava rolando.
Ele entrou na sala, deixou o material dele e voltou pro corredor, enquanto eu fui andando e parei no final pra esperar a Gi com notícias. Eu estava morta de vergonha porque tinha ido de saia aquele dia e minhas pernas são horríveis. Ela veio até mim e me contou: "ele mudou da manhã e vai estudar na minha sala!" Eu simplesmente fui escorregando até o chão, encostada na parede. Ele vendo tudo: eu esperando no final do corredor, a Gi chegando, ela me falando alguma coisa e eu escorregando até o chão... E a Gi: "menina, não faz assim!" E me puxou pra cima. Eu fiquei tão feliz que nem sabia o que fazer. Era a chance de ser amiga dele, pelo menos. E todo dia a Gi me dava relatório, apesar do nosso horário de intervalo não bater. Ela disse que ele era legal, pentelho porque ficava mexendo nas coisas dos outros, e que era muito palhação. Toda hora fazia as meninas rirem. Mas não durou nem duas semanas direito. Ele começou a mais faltar do que ir nas aulas. E ali por abril deixou de vez a escola. Ninguém sabia o que tinha acontecido.
Resolvi descobrir por conta. Eu sabia o sobrenome dele, que era incomum. Sabia onde ele pegava ônibus. Peguei a lista telefônica e o guia de ruas. Havia poucas pessoas com o sobrenome dele na lista de telefone. Achei dois endereços próximos de onde ele morava, mas apenas um era perto do ponto de ônibus em que ele ficava para ir pra escola. Vejam como eu realmente era obcecada por ele. Uma amiga minha pegava o mesmo ônibus que ele e eu a fiz prestar atenção em que ponto ele subia, daí eu fazer as deduções.
Descoberto o endereço e o telefone, fui lá na tal rua, ver se descobria a casa dele. Eu e uma amiga e uma amiga da minha amiga subindo a rua dele, vejo, há quase um quilômetro de distância (juro que não é mentira) uma figura descendo em direção a gente. Falei pra minha amiga: "vamos mudar de calçada porque ele tá vindo ali." Minha amiga duvidou: imagina, como eu ia saber que era ele àquela distância? E eu falando que era e era. A gente se aproximando. Não dava mais pra mudar de calçada sem ele nos ver. Minha amiga ficou besta por eu ter reconhecido M. de tão longe. Eu achei que devia me internar. E que ele devia ter medo de mim, porque tinha virado doença. Mas a gente acabou se cruzando na calçada, e ele fez uma cara de espanto para logo depois disfarçar. O menino era durão. Não queria dar bandeira. A gente subiu até o final da rua e começamos a descer. E ele voltou.
Na hora de atravessar uma das ruas, ele quase chegando na calçada e eu começando a atravessá-la, no que ele passou do meu lado, eu o segurei pelo braço e o chamei pelo nome. Ele me olhou muito feio. Muito mesmo. Achei que eu ia apanhar. Mas logo o olhar feio foi substituído pelo olhar debochado, brilhante como se estivesse sempre soltando faísca. Ele sempre teve um olhar debochado, daqueles bem insuportável. Mas ele podia, lindo do jeito que era. Eu perguntei a ele por que ele não estava mais indo na escola e ele respondeu que não se lembrava de mim na escola. Eu olhei pra ele e falei: "ah, qual é M.?" E ele repetiu, muito sério, olhando nos meus olhos: "eu não me lembro de você lá na escola". Eu dei um suspiro e falei: "tá bom, M.". Virei as costas, me juntei à minha amiga que estava me esperando do outro lado da rua, e continuei descendo, sem olhar para trás, sentindo raiva e vergonha. Daquele dia até a notícia da morte dele, eu não havia mais falado sobre ele com ninguém. Foi como se eu tivesse guardado ele num porão qualquer em que só eu podia entrar. Lembrava dele todo dia, mas não falava mais dele. Comecei a me isolar cada vez mais na escola.
Vieram as férias de julho, eu peguei catapora e só podia voltar em agosto para as aulas. Faltei no primeiro dia de aula depois das férias. Uma das meninas me ligou e contou de supetão: "o M. morreu". Disse que tinha um aviso da morte dele na escola e um convite para a missa de um mês. Eu gritei e chorei por uns 5 minutos. A Gi pegou o telefone, mas eu não conseguia falar e ela pediu pra chamar minha mãe, que falou com ela. De repente eu parei de chorar. Voltei ao telefone e comecei a contar da catapora que eu peguei da minha priminha, das coceiras, do pó branco que me transformou em fantasma. Como se nada tivesse acontecido. Eu simplesmente resolvi não acreditar em nada daquilo.
Fui à missa de um mês dele. Minha mãe deveria se encontrar comigo, mas desencontramos e ela seguiu direto para a igreja. Lá, na missa, eu assisti a tudo como se não fosse comigo. Eu não estava lá. Eu ouvia o nome do Marcelo, eu via as pessoas, mas estava em outra dimensão. Saí correndo da igreja, logo depois que perguntei a uma menina japonesa vestida de escoteira se era amiga dele e se sabia se ele tinha sido enterrado no Vila Formosa. Na descida, minha mãe me encontrou. Furiosa. Ela tinha se sentado junto da família dele e falado de mim. Ela achou que eu a tinha visto e ela jurou de pé junto que eu olhei pra ela. mas eu não a vi. Mesmo. Eu só queria sair dali. Ela achou que eu fingi e disse que ficou uma situação chata demais perante a família dele porque eu sumi. Mas eu realmente não a vi. Não vi ninguém. Eu fui, mas não estive lá na missa, de fato. Lembro de ver um moço parecido com ele abraçando uma moça loira que chorava muito, lembro de achar que a moça devia ser a namorada dele, e de mais nada.
Naquele dia de 1990, na rua da casa dele, eu fui embora certa de que nunca mais o veria e que ali morria meu segundo grande amor - o primeiro foi um primo que não era de sangue, e que conhecia desde os 4 ou 5 anos. Mal sabia que aquele encontro na rua com ele seria o último porque ele iria embora da vida de todos, não só da minha, de modo definitivo. Eu queria ter reclamado com ele, tentado fazer com que ele fosse pelo menos legal comigo. Mas ele não se lembrava de mim, e repetia isso. Eu escuto direitinho essa frase dele, até hoje. É como se ele estivesse na minha frente, pronunciando-a. Me lembro que achei a voz dele parecida com a do Piquet e muito feia, perto da beleza dele. E eu pensei, quando ele falou aquilo: é, por que ele se lembraria? Ele foi tudo na minha adolescência. Mas eu não era nada. Apenas mais uma feiosinha correndo atrás. Será que ele sabe, hoje, o tamanho da mágoa e do estrago que causou com um simples "eu não me lembro de você lá na escola"? Será que ele pediria desculpas para mim? Duvido. Mas mesmo assim, eu sofro até hoje por causa dele. E sinto que a história não se fechou porque eu não consegui me despedir do meu segundo grande amor como eu queria. Com um beijo no rosto e um seja feliz.